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Dias de chuva…

…despertam em mim sentimentos que eu desconheço. Um eu distante do que vejo; distante do que gosto de ser. Um eu frágil demais para sobreviver em dias onde a frieza sobrepõem-se até mesmo aos raios de sol mais fortes, que queimam a pele.

Bate uma saudade de velhos tempos, das pessoas, coisas, momentos e estações que marcaram e que nunca vão voltar.

Ah, que saudade daquela fase onde o que importava mesmo era ser feliz. Onde o momento mais triste do dia era aquela manobra perfeita de skate que não saia. E que sentar-se na esquina com os amigos e uma garrafa de Coca-Cola misturada com Orloff nos trazia alegria!

Uma época onde gritos eram de histeria adolescente e não de ódio latente. Onde gemidos significavam prazer e não dor. Onde nos importávamos mais em ser do que em mostrar.

Queríamos mais do mundo naquela época. Tínhamos o sonho de transformá-lo. Tínhamos uma esperança inocente, e um brilho no olhar; um coração bom que batia no ritmo do rock : aventureiro e descompromissado.

E tudo era mais simples!

Hoje as pessoas me cobram sorrisos, amor e compromisso com uma luta sem sentido para mim.

Sim, eu ainda sinto falta daquele tempo em que eu era feliz e não sabia.


Pobre galinha

Enquanto leio vejo pessoas andando de um lado para o outro, despreocupadas. Observam objetos, pensam no dinheiro. Observam pessoas, pensam em si mesmas. Me observam, eu penso.

Penso na vida, nas contas, em outras pessoas e em mim. Volto a ler meu livro.

Leio sobre o sofrimento mudo de uma galinha que teve o pé baleado em meio a guerra e acabou no prato de 26 pessoas. Sofreu e virou canja. No rádio, enquanto me lamento pela morte da galinha, toca uma música à lá anos 50. Boa música para velório. Boa.

Dou adeus à galinha quando a música chega ao fim. Fecho o livro e começo a escrever sobre o que vi, li e ouvi. Talvez isto me leve à um mergulho no meu “eu” interior e daí eu reflita sobre a vida ou, simplesmente, seja um treino de escrita. Outro dia ouvi dizer que a persistência é o que leva à perfeição. Quem sabe…

 


Like a Butterfly

 

Às vezes eu queria ser como uma borboleta

 

Só voar por aí sem pensar em nada

 

Voando sem destino

 

Num tempo programado

 

Pra qualquer lugar

 

Só voar, sem pressa de chegar

 

Aproveitando a liberdade de apenas ser

 

Sem a obrigação de fazer o maior

 

Apenas vivendo o melhor

 

Um dia de cada vez

 

Sem pensar em mim ou em você

 

Batendo as asas em direção ao infinito

 

Aproveitando a curta existência

 

Dando a minha parcela de vida ao dia eterno.

 

 

 


E essa tal de felicidade?

Os risos se vão.

Os olhos, que há segundos tentavam se fixar em alguma coisa interessante, querem se fechar. Cansaço, vazio, dúvida. Uma sensação de quase tristeza, mas não chega a tanto.

Inspiro. Expiro. Repito. Penso. Repito.

Não se pode confiar em tudo que se lê ou que se ouve. Sempre ouvi que a felicidade é algo que se alcança depois de se conquistar muitas coisas. Depois li que felicidade é um produto de marketing para tirar dinheiro de pessoas inocentes, bobas e vazias.

Seria a felicidade igual ao pote no fim do arco-íris, um bibelô na prateleira de uma loja cara demais pro meu bolso, uma invenção da mídia ou só algo que eu finjo ser mentira para disfarçar a frustração de não tê-la?

Felicidade… Durmo.

 


Uma página de amor frustrado para romantizar o livro

Ele estava tonto enquanto eu sorria, imaginando o que se passava em meio aos giros; o que ele pensava e sentia.

Eu queria as respostas das perguntas que não tem coragem de existir. Ele, talvez, quisesse mais uma dose desse “saio de mim e revelo-me”.

Os dois numa tentativa frustrada de homicídio. Uma legítima defesa contra a solidão.

“Dois objetos reluzentes”, como ele preferiu chamar, ali, vivendo um momento que mais tarde seria rabiscado mil vezes em folhas de papel. Uma daquelas horas que se vive apenas uma vez e que se tenta descrever eternamente.

Deliciosamente brega.

Amargamente deletado das conversas casuais.

 


A fuga

Suas mãos tremiam, sua cabeça doia, a respiração faltava e os olhos já não sentiam as lágrimas que insistiam em cair uma após a outra.

Já era noite naquela segunda e não tinha ninguém com quem Sofia pudesse conversar. As lembranças de sua infância eram vagas e isso era assustador. Decidiu pegar o livro em branco e rabiscar algumas palavras até que suas memórias, ou melhor, a falta delas as deixasse em paz.

Escreveu sobre o céu, a brisa e a vida imaginária que desejava ter. Escreveu sobre a manhã seguinte que talvez, em sua vida real, jamais chegasse até ela. Falou do quanto era grata à vida por existir e por ser feliz.

Fechou o livro, fechou os olhos e tentou dormir sem pensar de novo na realidade. Fugiu. E viu que era bom.