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Tão breve quanto o Sábado

Eram 11:59 de um Sábado a noite. A lua estava cheia. A casa estava vazia e silenciosa. O cachorro dormia. E ela pensava. Ela, a Menina de olhos assustados, estava sentada em sua cama com mil pensamentos, totalmente perdida dentro de si. Não queria mais lembrar da lua da noite anterior e decidiu fechar os olhos e imaginar o sol. Dormiu.

Na frente de um lago, com o céu azul e limpo, com a brisa soprando leve, a Menina abriu seus braços e esboçou um sorriso para os Deuses, Orixás, Estrelas do infinito, pra Mãe e pro Pai de todos os santos. Não importava qual divindade existia, o importante era sorrir em agradecimento ao dia. Mais um dia. Bom. Muito bom.

Abaixou seus braços e abriu os olhos. Tudo que viu do céu foram as estrelas de neon na parede de seu quarto. Era um sonho. O tempo inteiro imagens feitas pela sua cabeça. Apenas um sonho.

Levantou. Fez café e fumou um cigarro. Esperou Domingo nascer para começar a odiar Segunda. Fez anotações em seu velho livro de lembranças e voltou para o velho jogo de sorrir.

 


Dias de chuva…

…despertam em mim sentimentos que eu desconheço. Um eu distante do que vejo; distante do que gosto de ser. Um eu frágil demais para sobreviver em dias onde a frieza sobrepõem-se até mesmo aos raios de sol mais fortes, que queimam a pele.

Bate uma saudade de velhos tempos, das pessoas, coisas, momentos e estações que marcaram e que nunca vão voltar.

Ah, que saudade daquela fase onde o que importava mesmo era ser feliz. Onde o momento mais triste do dia era aquela manobra perfeita de skate que não saia. E que sentar-se na esquina com os amigos e uma garrafa de Coca-Cola misturada com Orloff nos trazia alegria!

Uma época onde gritos eram de histeria adolescente e não de ódio latente. Onde gemidos significavam prazer e não dor. Onde nos importávamos mais em ser do que em mostrar.

Queríamos mais do mundo naquela época. Tínhamos o sonho de transformá-lo. Tínhamos uma esperança inocente, e um brilho no olhar; um coração bom que batia no ritmo do rock : aventureiro e descompromissado.

E tudo era mais simples!

Hoje as pessoas me cobram sorrisos, amor e compromisso com uma luta sem sentido para mim.

Sim, eu ainda sinto falta daquele tempo em que eu era feliz e não sabia.


Persistência

Eu queria e me iludi

Pedi, mas foi negado

Pensei, mas estava errado

Escrevi e foi riscado

Sonhei e me acordaram

Queria jogar, mas não deixaram

Ainda corro e não me alcançaram…

 


Casamento da Barbie

Eram nove da manhã de uma Segunda-feira. O dia estava claro, o céu estava limpo e o sol brilhava calmo. Era um dia feliz no alto dos meus sete anos.

Meus ursos de pelúcia eram meus melhores amigos e coadjuvantes das minhas histórias. Muitas crianças inventam amigos imaginários, mas isso não me bastava e acabei por criar um universo inteiro. Eu era o centro do universo que havia criado. Vivia nele dia e noite.

De todos os planetas o que eu mais gostava era um chamado popularidade. Ficava na varanda da casa onde morava quando era pequena. Era um lugar mágico… mas isso não vem ao caso.

Vou falar daquela manhã de Segunda. Era uma manhã especial: eu celebraria o casamento da Barbie com o Ken. Eles estavam tão felizes! Particularmente, acho que estavam assustados com tantos convidados “diferentes”.

Barbie e Ken viviam na estante do meu quarto, ao lado de seres parecidíssimos com eles, todos com formas longas e perfeitas, com rostos angulares, olhos claros, cabelos lisos e loiros e com cheirinho de morango (eu acho). Eles viviam num mundo chamado Plástico. Alguns anos mais tarde conheci outros habitantes de Plástico, mas eles não eram tão gentis quanto Barbie e Ken… bem, imagino que por isso eles não deviam estar muito à vontade com a presença peculiar daquele meu outro grupo de amigos. Meus convidados eram umas dez vezes maiores que os noivos e eram peludos e encorpados. Uns mantinham a língua o tempo inteiro para fora da boca, outros faziam cara de malvados, e outros faziam cara de “melhores amigos do mundo”. Eram os habitantes do mundo Cão. Alguns amigos que tenho hoje em dia dizem viver neste tal mundo Cão, mas falam dele como se fosse um lugar ruim. Vou aconselhá-los a mudarem-se para Plástico, porque de lá recebo sempre boas notícias. Só não vão gostar muito da comida, ou melhor, da falta dela. Deve ser a crise na economia…

Fora este detalhe, os noivos apreciavam a cerimônia com toda felicidade estampada no rosto. A Barbie exibia um corte de cabelo maravilhoso, chamado “tosa do poodle”, ficou maravilhoso e combinou perfeitamente com o vestido amarelo e a grinalda azul que eu confeccionei especialmente para ela. Ken pareceu gostar, afinal, não tirou nem mesmo por um segundo aquele sorriso de príncipe encantado dos lábios. Quer saber? Formam um belo casal.



A fuga

Suas mãos tremiam, sua cabeça doia, a respiração faltava e os olhos já não sentiam as lágrimas que insistiam em cair uma após a outra.

Já era noite naquela segunda e não tinha ninguém com quem Sofia pudesse conversar. As lembranças de sua infância eram vagas e isso era assustador. Decidiu pegar o livro em branco e rabiscar algumas palavras até que suas memórias, ou melhor, a falta delas as deixasse em paz.

Escreveu sobre o céu, a brisa e a vida imaginária que desejava ter. Escreveu sobre a manhã seguinte que talvez, em sua vida real, jamais chegasse até ela. Falou do quanto era grata à vida por existir e por ser feliz.

Fechou o livro, fechou os olhos e tentou dormir sem pensar de novo na realidade. Fugiu. E viu que era bom.


As primeiras letras

Sofia começou a escrever o que lhe vinha à mente…

Muito tempo passou-se antes que eu nascesse

Nasci atrasada

Cresci com pressa

Esqueci da minha infância, mas penso nela quando a noite chega

A noite é uma criança que morre no fim do dia

“Somente os bons morrem jovens”, ouvi certa vez.


 

e lhe pareceram bonitas aquelas palavras rabiscadas no papel.