Um pequeno conto para Maha

Certo, Maha, observe as vozes, os gestos contidos e os provocativos. Olhe suas expressões entediantes pela sala. Observe.

A classe do Sr. Matias está cheia de mentes dispersas, e nem a divagação mais fascinante é capaz de distrair minha calopsita numa tarde de domingo. Todos estão cheios de si. Na juventude, nada além do cabelo importa.

Veja Margarida, com seu vestido florido e suas tranças jogadas no ombro: sonha com um forasteiro, vindo em um possante branco, com uma flor na mão, um sorriso no rosto e muito amor. Mas sonhos são para o travesseiro, Maha. Nossa ingênua Margarida vai acabar seus dias na frente de uma caixa falante, com um grotesco comedor de frango frito gritando frases cheias de palavras proibidas para criancinhas. Dirão “pobre Margarida”, mas foi ela quem escolheu este caminho. Apenas ela.

Nunca sonhe demais.

Descruze os braços e olhe para a direita, minha querida. Há um sujeito esticado na cadeira, que parece dizer com seu ego inflado sob o peito: “tenho um futuro promissor”. Não percebe a mediocridade de sua existência e, entregue à sua ganância, se venderá para uma velha – viúva de juiz. Tardes de sábado banhadas por drink’s na piscina que não é sua. Mulheres que não pode mais ter, o desejarão. Um suspiro de alívio antecederá a bala disparada, por ele próprio, contra a sua cabeça quando perceber o que se tornou.

Não lamente tanto.

Levante-se, Maha. Saia imediatamente deste lugar com cheiro de enxofre. Suba pelas escadas até o terraço do prédio. Olhe para o céu e contemple o espaço entre seu nariz e o infinito. Sente? Essa é você.

 

 


Pare de pensar em seu amigo

Amanhã é muito longe de hoje e, agora, eu penso que “depois” é muito tempo

O nosso “ainda não” mais parece uma maldição e o “quem sabe” é um tormento

Eu não tive a coragem necessária para deixar de pensar em você

Lá no fundo, eu não quero te perder

É possível perder o que não se tem?

Meu Deus, como é complicado gostar de alguém!

Te guardei dentro do meu travesseiro e mais tarde vou te abraçar

Fecharei meus olhos e estaremos juntos até o despertador tocar

E quando você estiver, de verdade, na minha frente

Vou fingir que isso nunca se passou por minha mente

Vou beijar seu rosto com vontade de chorar e depois cantar uma canção angustiante

Não é que eu não goste da sua bochecha, mas sua boca é mais interessante

 


Sobre a Falta

O ilustre senhor quase desconhecido me perguntou o que nos falta.

Falta o que há tanto está em falta: a surpresa, o improvável, o talvez, o tempo, o por do sol, o banho de chuva, a farinha no nariz, a poesia, o porre, o acaso, as conversas sobre nossos casos…

Outro dia me veio com uma dessas perguntas estupidamente simples e, ao mesmo tempo, complexas. “É feliz“? Fiquei matutando isto pelos últimos dois anos e, em 140 caracteres, tive que responder de pronto. Sou uma dessas pessoas que não conseguem deixar uma pergunta sem resposta. Questão de honra, pura e simplesmente. “– Não”.

Talvez o que falta não importe tanto assim. Já temos as risadas e esse Q de “deixa o tempo passar, vamos ver no que isso dá”. Vamos, ou vou, ou vai… Vai saber! Veja só, já temos o “talvez”. Bom começo.

 

 


Por Ninguém, Confesso

Confesso, antes que me pergunte, que há mais coisas entre o travesseiro e o espelho, que supõe sua vã curiosidade.

Minha vontade, condizente com o que imagina, mas distinta da realidade, é chamar de “meu amor”, a custa de uma flor de nome desconhecido, aquele certo (?) alguém.

O que fazer se o que desejo foge das possibilidades que a realidade me oferece? Escreverei, para ninguém ler e querendo que todos saibam, coisas aparentemente desconexas, mas que deixam minhas bochechas avermelhadas e minha cabeça encucada; me tira o sono e me sinto, como alguém também já sentiu antes, um cão sem dono.

Se desconfia que isto é para ele, e me pergunta, vou rir e, talvez, até gargalhar. Vou negar! Não, não poderia me apaixonar por meu amigo, se é que é amigo neste caso (do acaso). Eu nem posso fazer meu coração bater por ninguém. Ninguém.

Lembro-me – como uma mãe lembra-se da dor de um parto e depois finge-se de forte como se fosse a dor duma unha encravada – que jurei não me apaixonar e ser amiga de todos e amante de nenhum. Lembro-me das noites em claro, dos travesseiros borrados de rímel e da boca apagada sem batom. Lembro até das conversas com a gata – esta já, inclusive, morreu – que, calada, me aconselhava esquecer-me de todos os homens e não ter ninguém em quem pensar; ninguém pra telefonar às 3 da manhã e dizer “Estou pensando em você”, morta de bêbada no banheiro de um bar fuleiro.

“-Ninguém”, aconselhou-me a gata.

É em ninguém que eu penso. É por ninguém que perdi as noites deste último mês. É por ninguém que escrevo pra matar a saudade, que ele há de nunca imaginar que senti hoje à noite.

 


Tão breve quanto o Sábado

Eram 11:59 de um Sábado a noite. A lua estava cheia. A casa estava vazia e silenciosa. O cachorro dormia. E ela pensava. Ela, a Menina de olhos assustados, estava sentada em sua cama com mil pensamentos, totalmente perdida dentro de si. Não queria mais lembrar da lua da noite anterior e decidiu fechar os olhos e imaginar o sol. Dormiu.

Na frente de um lago, com o céu azul e limpo, com a brisa soprando leve, a Menina abriu seus braços e esboçou um sorriso para os Deuses, Orixás, Estrelas do infinito, pra Mãe e pro Pai de todos os santos. Não importava qual divindade existia, o importante era sorrir em agradecimento ao dia. Mais um dia. Bom. Muito bom.

Abaixou seus braços e abriu os olhos. Tudo que viu do céu foram as estrelas de neon na parede de seu quarto. Era um sonho. O tempo inteiro imagens feitas pela sua cabeça. Apenas um sonho.

Levantou. Fez café e fumou um cigarro. Esperou Domingo nascer para começar a odiar Segunda. Fez anotações em seu velho livro de lembranças e voltou para o velho jogo de sorrir.

 


Caos

Quando tudo dá errado, vem a matemática e te prova que você não sabe de nada: “tudo” é relativo; existe sempre algo mais pra dar errado. E dá.

Aí, quando se está com os nervos à flor da pele e a dúvida que predomina é “ligo pro chefe ou pro cardiologista”, aparece uma velhinha falando proparoxítonas pelos cotovelos, e te faz dizer o que sua avó se envergonharia só de ouvir. Que feio.<

“Calma, jornalista”! Imperativo categórico.

 


Fala de Lucy para Schroeder, do episódio “Lucy ama Schroeder” [snoopy]

“Eles dizem que nós garotas, somos como músicas bonitas, como canções inesquecíveis! Você nunca pensou em mim como uma melodia que você gosta…?”