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Só mais um cigarro

É manhã de inverno em meu país tropical. Procuro apenas um verbo para rimar e expressar o meu mal. Amor. Não rima. Não rima comigo. Não rima com a vida que deus me deu.

Eu sinto o sabor da fumaça cortando minha garganta. Parei de fumar nem sei há quanto tempo; há duas semanas, talvez. Mas ainda sinto cada toxina me invadindo e me dando o prazer de me matar aos poucos. Como é bom morrer. Como é bom esquecer. Fugir. Não sentir. Só preciso de mais um trago… me estrago. E ainda pago por isso.

Se eu gosto de labirintos? Aprecio o que não faz sentido, porque me identifico. A confusão é só uma forma de tentar expulsar os pensamentos que não nos permitimos ter.

Desculpe, Mundo, mas eu peco. E gosto. Gozo. Me entrego. E depois tento esquecer…


Sanduíche

Uma fatia de presunto e duas de queijo, num pão de ontem de manhã. O tempo está gelado, mas nada que o microondas não resolva. Serão apenas trinta segundos para matar a minha fome.

A porta do quarto três abre e minha paz ameaça ir embora. O clima além de frio, agora é tenso. Sinto o ódio, que dormia, acordar como um lobo. Me transformo no mal. O sangue esquenta, talvez seja culpa das ondas que descongelam o presunto do sanduíche.

A porta da frente de casa abre: são os juízes do meu destinam que adentram. Ouvi uma conversa sobre uma sujeira qualquer na residência dos Gondim Pereira. O motivo do sangue fervilhando é este: sujeira. Há imundícies escondidas embaixo da pele do cordeiro do quarto três. Quem limpará?

Lobos não podem ficar presos entre quatro paredes. Precisam ir para florestas grandes, conviver com animais perigosos. É da natureza dos lobos serem frios (mesmo em dias quentes), explosivos, introspectivos. Maus. Astutos também.

Avisa na casa que agora tem mais espaço. Os cordeiros podem se multiplicar: o lobo mau já foi embora.

Trinta segundos: está feito.


O que não dá pra mudar

Um dia ainda me explico porque anoto meu futuro – aquele que eu deveria ter – nas últimas folhas do caderno. Nunca releio a tempo. Só muito tempo depois.

Um dia desses ainda perco o medo, que não sei bem quando achei, de falar o que eu quero que entendam de maneira fina, mas objetiva.

Um dia desses aprendo a falar ao invés de escrever. E o melhor: a falar com as pessoas que provocaram essa vontade de comunicação.

Um dia desses, talvez, acorde mais paciente e não reclame da vida de merda que levamos, conformados.

Quem sabe um dia eu me conforme. E em outro me conforme com meu conformismo. Ou com meu pseudo-conformismo.

Quem sabe um dia minha dieta dure mais de 48 horas, eu fique mais magra e fique dentro dos padrões que cresci odiando.

Talvez um dia eu mergulhe fundo em um assunto e saiba aplicá-lo prolixamente, ao invés de sintetizar sobre Deus e em seguida sobre a batata frita do Burguer King.

Um dia desses eu posso comprar mais roupas que livros, sair vestida nelas para as festas que todo mundo vai, fazer o que todo faz e conversar sobre a novela.

Um dia desses ainda me calo diante de uma opinião absurda e contrária à minha, sorrio como se estivesse satisfeita e convertida, e ajo de acordo com o que convém.

Um dia desses talvez eu mude tanto que acabe me tornando quem você quer que eu seja. Qualquer pessoa, que não seja eu.


De um ponto se fez pontos

Um ponto precisa de outro ponto para ser dois pontos e explicar alguma coisa; fazer sentido.

Dois pontos com mais um ponto é três pontos: reticências… Explico minhas reticências com dois pontos: o porquê.

Três pontos sem um ponto é dois pontos. Dois pontos sem um ponto é ponto final.

Ponto.

 

 


Sobre a Falta

O ilustre senhor quase desconhecido me perguntou o que nos falta.

Falta o que há tanto está em falta: a surpresa, o improvável, o talvez, o tempo, o por do sol, o banho de chuva, a farinha no nariz, a poesia, o porre, o acaso, as conversas sobre nossos casos…

Outro dia me veio com uma dessas perguntas estupidamente simples e, ao mesmo tempo, complexas. “É feliz“? Fiquei matutando isto pelos últimos dois anos e, em 140 caracteres, tive que responder de pronto. Sou uma dessas pessoas que não conseguem deixar uma pergunta sem resposta. Questão de honra, pura e simplesmente. “– Não”.

Talvez o que falta não importe tanto assim. Já temos as risadas e esse Q de “deixa o tempo passar, vamos ver no que isso dá”. Vamos, ou vou, ou vai… Vai saber! Veja só, já temos o “talvez”. Bom começo.

 

 


Caos

Quando tudo dá errado, vem a matemática e te prova que você não sabe de nada: “tudo” é relativo; existe sempre algo mais pra dar errado. E dá.

Aí, quando se está com os nervos à flor da pele e a dúvida que predomina é “ligo pro chefe ou pro cardiologista”, aparece uma velhinha falando proparoxítonas pelos cotovelos, e te faz dizer o que sua avó se envergonharia só de ouvir. Que feio.<

“Calma, jornalista”! Imperativo categórico.

 


Fala de Lucy para Schroeder, do episódio “Lucy ama Schroeder” [snoopy]

“Eles dizem que nós garotas, somos como músicas bonitas, como canções inesquecíveis! Você nunca pensou em mim como uma melodia que você gosta…?”