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Um pequeno conto para Maha

Certo, Maha, observe as vozes, os gestos contidos e os provocativos. Olhe suas expressões entediantes pela sala. Observe.

A classe do Sr. Matias está cheia de mentes dispersas, e nem a divagação mais fascinante é capaz de distrair minha calopsita numa tarde de domingo. Todos estão cheios de si. Na juventude, nada além do cabelo importa.

Veja Margarida, com seu vestido florido e suas tranças jogadas no ombro: sonha com um forasteiro, vindo em um possante branco, com uma flor na mão, um sorriso no rosto e muito amor. Mas sonhos são para o travesseiro, Maha. Nossa ingênua Margarida vai acabar seus dias na frente de uma caixa falante, com um grotesco comedor de frango frito gritando frases cheias de palavras proibidas para criancinhas. Dirão “pobre Margarida”, mas foi ela quem escolheu este caminho. Apenas ela.

Nunca sonhe demais.

Descruze os braços e olhe para a direita, minha querida. Há um sujeito esticado na cadeira, que parece dizer com seu ego inflado sob o peito: “tenho um futuro promissor”. Não percebe a mediocridade de sua existência e, entregue à sua ganância, se venderá para uma velha – viúva de juiz. Tardes de sábado banhadas por drink’s na piscina que não é sua. Mulheres que não pode mais ter, o desejarão. Um suspiro de alívio antecederá a bala disparada, por ele próprio, contra a sua cabeça quando perceber o que se tornou.

Não lamente tanto.

Levante-se, Maha. Saia imediatamente deste lugar com cheiro de enxofre. Suba pelas escadas até o terraço do prédio. Olhe para o céu e contemple o espaço entre seu nariz e o infinito. Sente? Essa é você.

 

 


A idade de ser feliz, de Mário Quintana

“Existe somente uma idade para ser feliz, sonhar e fazer planos.

Uma idade para nos encantar com a vida e viver apaixonadamente, desfrutar tudo com toda a intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer.

Fase em que podemos fazer e recriar a própria imagem vestir-se com todas as cores, experimentar todos os sabores, se entregar a todos os amores sem preconceito nem pudor.

Tempo de entusiasmo e coragem, e tentar de novo e de novo, quantas vezes for preciso.

Essa idade tão fugaz é o presente e tem a duração do instante que passa.”

 

 


Então Charlie Brown,

…o que é amor pra você?
– Em 1987 meu pai tinha um carro azul
– Mas o que isso tem a ver com amor?
– Bom, acontece que todos os dias ele dava carona pra uma moça. Ele saía do carro, abria a porta pra ela, quando ela entrava ele fechava a porta, dava a volta pelo carro e quando ele ia abrir a porta pra entrar, ela apertava a tranca. Ela ficava fazendo caretas e os dois morriam de rir.
…acho que isso é amor.
[Tirado do desenho do Snoopy- Não autoral]

A Verdade

Então me desligo e percebo que faço parte de uma grande mentira nossa de todos os dias. Você me personifica num mundo que é só seu. E todos fazem o mesmo. A realidade nada mais é do que o conjunto de vários mundos imaginários; complexas ilusões individuais.

Por um minuto – que pareciam eras, pois certas teorias de “como teria sido se..” ocupavam cada milésimo desse tempo– me permiti imaginar que cada palavra pronunciada naquele instante foi verdadeira. Penso, pois, que a palavra “verdade” é perigosa. Considero que essas mesmas palavras, que para mim foram um atestado da falta com a realidade, sejam fruto do emaranhado de personificações imaginárias do mundo individual do autor que as criou. Logo, seguindo o raciocínio, já que as palavras narravam a realidade por ele criada, eram verdadeiras – em seu mundo.

Há, portanto, duas realidades distintas e dois mundos diferentes.  Duas verdades.