Arquivo da categoria: Foi assim

Tão breve quanto o Sábado

Eram 11:59 de um Sábado a noite. A lua estava cheia. A casa estava vazia e silenciosa. O cachorro dormia. E ela pensava. Ela, a Menina de olhos assustados, estava sentada em sua cama com mil pensamentos, totalmente perdida dentro de si. Não queria mais lembrar da lua da noite anterior e decidiu fechar os olhos e imaginar o sol. Dormiu.

Na frente de um lago, com o céu azul e limpo, com a brisa soprando leve, a Menina abriu seus braços e esboçou um sorriso para os Deuses, Orixás, Estrelas do infinito, pra Mãe e pro Pai de todos os santos. Não importava qual divindade existia, o importante era sorrir em agradecimento ao dia. Mais um dia. Bom. Muito bom.

Abaixou seus braços e abriu os olhos. Tudo que viu do céu foram as estrelas de neon na parede de seu quarto. Era um sonho. O tempo inteiro imagens feitas pela sua cabeça. Apenas um sonho.

Levantou. Fez café e fumou um cigarro. Esperou Domingo nascer para começar a odiar Segunda. Fez anotações em seu velho livro de lembranças e voltou para o velho jogo de sorrir.

 


Pobre galinha

Enquanto leio vejo pessoas andando de um lado para o outro, despreocupadas. Observam objetos, pensam no dinheiro. Observam pessoas, pensam em si mesmas. Me observam, eu penso.

Penso na vida, nas contas, em outras pessoas e em mim. Volto a ler meu livro.

Leio sobre o sofrimento mudo de uma galinha que teve o pé baleado em meio a guerra e acabou no prato de 26 pessoas. Sofreu e virou canja. No rádio, enquanto me lamento pela morte da galinha, toca uma música à lá anos 50. Boa música para velório. Boa.

Dou adeus à galinha quando a música chega ao fim. Fecho o livro e começo a escrever sobre o que vi, li e ouvi. Talvez isto me leve à um mergulho no meu “eu” interior e daí eu reflita sobre a vida ou, simplesmente, seja um treino de escrita. Outro dia ouvi dizer que a persistência é o que leva à perfeição. Quem sabe…

 


Persistência

Eu queria e me iludi

Pedi, mas foi negado

Pensei, mas estava errado

Escrevi e foi riscado

Sonhei e me acordaram

Queria jogar, mas não deixaram

Ainda corro e não me alcançaram…

 


Casamento da Barbie

Eram nove da manhã de uma Segunda-feira. O dia estava claro, o céu estava limpo e o sol brilhava calmo. Era um dia feliz no alto dos meus sete anos.

Meus ursos de pelúcia eram meus melhores amigos e coadjuvantes das minhas histórias. Muitas crianças inventam amigos imaginários, mas isso não me bastava e acabei por criar um universo inteiro. Eu era o centro do universo que havia criado. Vivia nele dia e noite.

De todos os planetas o que eu mais gostava era um chamado popularidade. Ficava na varanda da casa onde morava quando era pequena. Era um lugar mágico… mas isso não vem ao caso.

Vou falar daquela manhã de Segunda. Era uma manhã especial: eu celebraria o casamento da Barbie com o Ken. Eles estavam tão felizes! Particularmente, acho que estavam assustados com tantos convidados “diferentes”.

Barbie e Ken viviam na estante do meu quarto, ao lado de seres parecidíssimos com eles, todos com formas longas e perfeitas, com rostos angulares, olhos claros, cabelos lisos e loiros e com cheirinho de morango (eu acho). Eles viviam num mundo chamado Plástico. Alguns anos mais tarde conheci outros habitantes de Plástico, mas eles não eram tão gentis quanto Barbie e Ken… bem, imagino que por isso eles não deviam estar muito à vontade com a presença peculiar daquele meu outro grupo de amigos. Meus convidados eram umas dez vezes maiores que os noivos e eram peludos e encorpados. Uns mantinham a língua o tempo inteiro para fora da boca, outros faziam cara de malvados, e outros faziam cara de “melhores amigos do mundo”. Eram os habitantes do mundo Cão. Alguns amigos que tenho hoje em dia dizem viver neste tal mundo Cão, mas falam dele como se fosse um lugar ruim. Vou aconselhá-los a mudarem-se para Plástico, porque de lá recebo sempre boas notícias. Só não vão gostar muito da comida, ou melhor, da falta dela. Deve ser a crise na economia…

Fora este detalhe, os noivos apreciavam a cerimônia com toda felicidade estampada no rosto. A Barbie exibia um corte de cabelo maravilhoso, chamado “tosa do poodle”, ficou maravilhoso e combinou perfeitamente com o vestido amarelo e a grinalda azul que eu confeccionei especialmente para ela. Ken pareceu gostar, afinal, não tirou nem mesmo por um segundo aquele sorriso de príncipe encantado dos lábios. Quer saber? Formam um belo casal.



A Verdade

Então me desligo e percebo que faço parte de uma grande mentira nossa de todos os dias. Você me personifica num mundo que é só seu. E todos fazem o mesmo. A realidade nada mais é do que o conjunto de vários mundos imaginários; complexas ilusões individuais.

Por um minuto – que pareciam eras, pois certas teorias de “como teria sido se..” ocupavam cada milésimo desse tempo– me permiti imaginar que cada palavra pronunciada naquele instante foi verdadeira. Penso, pois, que a palavra “verdade” é perigosa. Considero que essas mesmas palavras, que para mim foram um atestado da falta com a realidade, sejam fruto do emaranhado de personificações imaginárias do mundo individual do autor que as criou. Logo, seguindo o raciocínio, já que as palavras narravam a realidade por ele criada, eram verdadeiras – em seu mundo.

Há, portanto, duas realidades distintas e dois mundos diferentes.  Duas verdades.

 


Tempos Modernos, de Nane Pereira

E ele viu tanta beleza nas olheiras dela,

viu tanta beleza nas unhas pintadas de vermelho,

viu tanta beleza na cabeleira desarrumada.

O olhar perdido dela

Fez-lhe perder o sono.

Ele decorou uma música em inglês

para impressionar a menina e cantou alto,

muito alto…

Se fez apresentar nos horários de café,

de almoço e jantar…

Suspirou pelos cantos…

Suspirou de dor, suspirou de amor.

Esperta,

caçoou dos sentimentos dele,

desprezou os enfeites

e continuo sorrindo.

I-ro-ni-ca-men-te solitária.


Será?

É que hoje eu acordei assim: parece que o coração cresceu e o corpo não acompanhou.

Ele bate, bate, bate e pára por três segundos, e ainda mente disfarçando que a culpa é do cigarro…