Arquivo do mês: maio 2011

Sanduíche

Uma fatia de presunto e duas de queijo, num pão de ontem de manhã. O tempo está gelado, mas nada que o microondas não resolva. Serão apenas trinta segundos para matar a minha fome.

A porta do quarto três abre e minha paz ameaça ir embora. O clima além de frio, agora é tenso. Sinto o ódio, que dormia, acordar como um lobo. Me transformo no mal. O sangue esquenta, talvez seja culpa das ondas que descongelam o presunto do sanduíche.

A porta da frente de casa abre: são os juízes do meu destinam que adentram. Ouvi uma conversa sobre uma sujeira qualquer na residência dos Gondim Pereira. O motivo do sangue fervilhando é este: sujeira. Há imundícies escondidas embaixo da pele do cordeiro do quarto três. Quem limpará?

Lobos não podem ficar presos entre quatro paredes. Precisam ir para florestas grandes, conviver com animais perigosos. É da natureza dos lobos serem frios (mesmo em dias quentes), explosivos, introspectivos. Maus. Astutos também.

Avisa na casa que agora tem mais espaço. Os cordeiros podem se multiplicar: o lobo mau já foi embora.

Trinta segundos: está feito.


O que não dá pra mudar

Um dia ainda me explico porque anoto meu futuro – aquele que eu deveria ter – nas últimas folhas do caderno. Nunca releio a tempo. Só muito tempo depois.

Um dia desses ainda perco o medo, que não sei bem quando achei, de falar o que eu quero que entendam de maneira fina, mas objetiva.

Um dia desses aprendo a falar ao invés de escrever. E o melhor: a falar com as pessoas que provocaram essa vontade de comunicação.

Um dia desses, talvez, acorde mais paciente e não reclame da vida de merda que levamos, conformados.

Quem sabe um dia eu me conforme. E em outro me conforme com meu conformismo. Ou com meu pseudo-conformismo.

Quem sabe um dia minha dieta dure mais de 48 horas, eu fique mais magra e fique dentro dos padrões que cresci odiando.

Talvez um dia eu mergulhe fundo em um assunto e saiba aplicá-lo prolixamente, ao invés de sintetizar sobre Deus e em seguida sobre a batata frita do Burguer King.

Um dia desses eu posso comprar mais roupas que livros, sair vestida nelas para as festas que todo mundo vai, fazer o que todo faz e conversar sobre a novela.

Um dia desses ainda me calo diante de uma opinião absurda e contrária à minha, sorrio como se estivesse satisfeita e convertida, e ajo de acordo com o que convém.

Um dia desses talvez eu mude tanto que acabe me tornando quem você quer que eu seja. Qualquer pessoa, que não seja eu.