Arquivo do mês: fevereiro 2011

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Um pequeno conto para Maha

Certo, Maha, observe as vozes, os gestos contidos e os provocativos. Olhe suas expressões entediantes pela sala. Observe.

A classe do Sr. Matias está cheia de mentes dispersas, e nem a divagação mais fascinante é capaz de distrair minha calopsita numa tarde de domingo. Todos estão cheios de si. Na juventude, nada além do cabelo importa.

Veja Margarida, com seu vestido florido e suas tranças jogadas no ombro: sonha com um forasteiro, vindo em um possante branco, com uma flor na mão, um sorriso no rosto e muito amor. Mas sonhos são para o travesseiro, Maha. Nossa ingênua Margarida vai acabar seus dias na frente de uma caixa falante, com um grotesco comedor de frango frito gritando frases cheias de palavras proibidas para criancinhas. Dirão “pobre Margarida”, mas foi ela quem escolheu este caminho. Apenas ela.

Nunca sonhe demais.

Descruze os braços e olhe para a direita, minha querida. Há um sujeito esticado na cadeira, que parece dizer com seu ego inflado sob o peito: “tenho um futuro promissor”. Não percebe a mediocridade de sua existência e, entregue à sua ganância, se venderá para uma velha – viúva de juiz. Tardes de sábado banhadas por drink’s na piscina que não é sua. Mulheres que não pode mais ter, o desejarão. Um suspiro de alívio antecederá a bala disparada, por ele próprio, contra a sua cabeça quando perceber o que se tornou.

Não lamente tanto.

Levante-se, Maha. Saia imediatamente deste lugar com cheiro de enxofre. Suba pelas escadas até o terraço do prédio. Olhe para o céu e contemple o espaço entre seu nariz e o infinito. Sente? Essa é você.