Um dia ainda me explico porque anoto meu futuro – aquele que eu deveria ter – nas últimas folhas do caderno. Nunca releio a tempo. Só muito tempo depois.
Um dia desses ainda perco o medo, que não sei bem quando achei, de falar o que eu quero que entendam de maneira fina, mas objetiva.
Um dia desses aprendo a falar ao invés de escrever. E o melhor: a falar com as pessoas que provocaram essa vontade de comunicação.
Um dia desses, talvez, acorde mais paciente e não reclame da vida de merda que levamos, conformados.
Quem sabe um dia eu me conforme. E em outro me conforme com meu conformismo. Ou com meu pseudo-conformismo.
Quem sabe um dia minha dieta dure mais de 48 horas, eu fique mais magra e fique dentro dos padrões que cresci odiando.
Talvez um dia eu mergulhe fundo em um assunto e saiba aplicá-lo prolixamente, ao invés de sintetizar sobre Deus e em seguida sobre a batata frita do Burguer King.
Um dia desses eu posso comprar mais roupas que livros, sair vestida nelas para as festas que todo mundo vai, fazer o que todo faz e conversar sobre a novela.
Um dia desses ainda me calo diante de uma opinião absurda e contrária à minha, sorrio como se estivesse satisfeita e convertida, e ajo de acordo com o que convém.
Um dia desses talvez eu mude tanto que acabe me tornando quem você quer que eu seja. Qualquer pessoa, que não seja eu.