Como curar a dor sem nome?

Diriam os céticos: beba mais, o álcool preencherá esse vazio.

Os românticos defenderiam outra posição: um coração que pulsa em sintonia com um igual, acabará com este mal.

Uma pessoa que já passou da adolescência, mas ainda é jovem e viveu – e quebrou o coração algumas vezes – diria que é melhor seguir em frente, respondendo uma pergunta por dia e aconselharia sorrir, porque não há mal que suporte uma boca cheia de dentes que se abre para o sol e tenta absorver sua energia.


Só mais um cigarro

É manhã de inverno em meu país tropical. Procuro apenas um verbo para rimar e expressar o meu mal. Amor. Não rima. Não rima comigo. Não rima com a vida que deus me deu.

Eu sinto o sabor da fumaça cortando minha garganta. Parei de fumar nem sei há quanto tempo; há duas semanas, talvez. Mas ainda sinto cada toxina me invadindo e me dando o prazer de me matar aos poucos. Como é bom morrer. Como é bom esquecer. Fugir. Não sentir. Só preciso de mais um trago… me estrago. E ainda pago por isso.

Se eu gosto de labirintos? Aprecio o que não faz sentido, porque me identifico. A confusão é só uma forma de tentar expulsar os pensamentos que não nos permitimos ter.

Desculpe, Mundo, mas eu peco. E gosto. Gozo. Me entrego. E depois tento esquecer…


Conselhos

Foram palavras duras, ditas entre gargalhadas, mas gente velha diz que sabe das coisas. Quando se é jovem leva-se tudo muito a sério, tudo é questão de sucesso ou fracasso. Dorme-se tarde, acorda-se cedo. Trabalha-se muito, estuda-se pouco. Bebe-se muito, ferra-se muito também. Tudo extremo. É o treino pra ser adulto.

Quando se é adulto tudo vira jogo. Fulano fez isso porque queria fazer aquela outra coisa, mas precisava fazer isto antes pra conseguir finalmente algo perto do que planejou. Tudo é porque o plano não deu certo. Estava arquitetado, mas com uma peça fora do lugar, perde-se a partida. É brincadeira!

De um lado a ingenuidade e do outro o amadurecimento. E amadurecer é só uma questão de desmistificar essa baboseira de sonhos. “-A vida é uma bosta; vê se cresce!”.

Vai ver o negócio é parar de sonhar, não acreditar nas pessoas, maquiavelizar as decisões, entender que omitir te exime de culpa, e que se foda a porra do mendigo se a minha conta estiver azul.

Gente velha sabe mesmo das coisas. Sabe mentir melhor. Sabe dormir sabendo disso. E sabe dar conselho também: “nunca acredite em ninguém”. Isso te inclui?


Sanduíche

Uma fatia de presunto e duas de queijo, num pão de ontem de manhã. O tempo está gelado, mas nada que o microondas não resolva. Serão apenas trinta segundos para matar a minha fome.

A porta do quarto três abre e minha paz ameaça ir embora. O clima além de frio, agora é tenso. Sinto o ódio, que dormia, acordar como um lobo. Me transformo no mal. O sangue esquenta, talvez seja culpa das ondas que descongelam o presunto do sanduíche.

A porta da frente de casa abre: são os juízes do meu destinam que adentram. Ouvi uma conversa sobre uma sujeira qualquer na residência dos Gondim Pereira. O motivo do sangue fervilhando é este: sujeira. Há imundícies escondidas embaixo da pele do cordeiro do quarto três. Quem limpará?

Lobos não podem ficar presos entre quatro paredes. Precisam ir para florestas grandes, conviver com animais perigosos. É da natureza dos lobos serem frios (mesmo em dias quentes), explosivos, introspectivos. Maus. Astutos também.

Avisa na casa que agora tem mais espaço. Os cordeiros podem se multiplicar: o lobo mau já foi embora.

Trinta segundos: está feito.


O que não dá pra mudar

Um dia ainda me explico porque anoto meu futuro – aquele que eu deveria ter – nas últimas folhas do caderno. Nunca releio a tempo. Só muito tempo depois.

Um dia desses ainda perco o medo, que não sei bem quando achei, de falar o que eu quero que entendam de maneira fina, mas objetiva.

Um dia desses aprendo a falar ao invés de escrever. E o melhor: a falar com as pessoas que provocaram essa vontade de comunicação.

Um dia desses, talvez, acorde mais paciente e não reclame da vida de merda que levamos, conformados.

Quem sabe um dia eu me conforme. E em outro me conforme com meu conformismo. Ou com meu pseudo-conformismo.

Quem sabe um dia minha dieta dure mais de 48 horas, eu fique mais magra e fique dentro dos padrões que cresci odiando.

Talvez um dia eu mergulhe fundo em um assunto e saiba aplicá-lo prolixamente, ao invés de sintetizar sobre Deus e em seguida sobre a batata frita do Burguer King.

Um dia desses eu posso comprar mais roupas que livros, sair vestida nelas para as festas que todo mundo vai, fazer o que todo faz e conversar sobre a novela.

Um dia desses ainda me calo diante de uma opinião absurda e contrária à minha, sorrio como se estivesse satisfeita e convertida, e ajo de acordo com o que convém.

Um dia desses talvez eu mude tanto que acabe me tornando quem você quer que eu seja. Qualquer pessoa, que não seja eu.


De um ponto se fez pontos

Um ponto precisa de outro ponto para ser dois pontos e explicar alguma coisa; fazer sentido.

Dois pontos com mais um ponto é três pontos: reticências… Explico minhas reticências com dois pontos: o porquê.

Três pontos sem um ponto é dois pontos. Dois pontos sem um ponto é ponto final.

Ponto.

 

 


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Um pequeno conto para Maha

Certo, Maha, observe as vozes, os gestos contidos e os provocativos. Olhe suas expressões entediantes pela sala. Observe.

A classe do Sr. Matias está cheia de mentes dispersas, e nem a divagação mais fascinante é capaz de distrair minha calopsita numa tarde de domingo. Todos estão cheios de si. Na juventude, nada além do cabelo importa.

Veja Margarida, com seu vestido florido e suas tranças jogadas no ombro: sonha com um forasteiro, vindo em um possante branco, com uma flor na mão, um sorriso no rosto e muito amor. Mas sonhos são para o travesseiro, Maha. Nossa ingênua Margarida vai acabar seus dias na frente de uma caixa falante, com um grotesco comedor de frango frito gritando frases cheias de palavras proibidas para criancinhas. Dirão “pobre Margarida”, mas foi ela quem escolheu este caminho. Apenas ela.

Nunca sonhe demais.

Descruze os braços e olhe para a direita, minha querida. Há um sujeito esticado na cadeira, que parece dizer com seu ego inflado sob o peito: “tenho um futuro promissor”. Não percebe a mediocridade de sua existência e, entregue à sua ganância, se venderá para uma velha – viúva de juiz. Tardes de sábado banhadas por drink’s na piscina que não é sua. Mulheres que não pode mais ter, o desejarão. Um suspiro de alívio antecederá a bala disparada, por ele próprio, contra a sua cabeça quando perceber o que se tornou.

Não lamente tanto.

Levante-se, Maha. Saia imediatamente deste lugar com cheiro de enxofre. Suba pelas escadas até o terraço do prédio. Olhe para o céu e contemple o espaço entre seu nariz e o infinito. Sente? Essa é você.

 

 


Pare de pensar em seu amigo

Amanhã é muito longe de hoje e, agora, eu penso que “depois” é muito tempo

O nosso “ainda não” mais parece uma maldição e o “quem sabe” é um tormento

Eu não tive a coragem necessária para deixar de pensar em você

Lá no fundo, eu não quero te perder

É possível perder o que não se tem?

Meu Deus, como é complicado gostar de alguém!

Te guardei dentro do meu travesseiro e mais tarde vou te abraçar

Fecharei meus olhos e estaremos juntos até o despertador tocar

E quando você estiver, de verdade, na minha frente

Vou fingir que isso nunca se passou por minha mente

Vou beijar seu rosto com vontade de chorar e depois cantar uma canção angustiante

Não é que eu não goste da sua bochecha, mas sua boca é mais interessante

 


Sobre a Falta

O ilustre senhor quase desconhecido me perguntou o que nos falta.

Falta o que há tanto está em falta: a surpresa, o improvável, o talvez, o tempo, o por do sol, o banho de chuva, a farinha no nariz, a poesia, o porre, o acaso, as conversas sobre nossos casos…

Outro dia me veio com uma dessas perguntas estupidamente simples e, ao mesmo tempo, complexas. “É feliz“? Fiquei matutando isto pelos últimos dois anos e, em 140 caracteres, tive que responder de pronto. Sou uma dessas pessoas que não conseguem deixar uma pergunta sem resposta. Questão de honra, pura e simplesmente. “– Não”.

Talvez o que falta não importe tanto assim. Já temos as risadas e esse Q de “deixa o tempo passar, vamos ver no que isso dá”. Vamos, ou vou, ou vai… Vai saber! Veja só, já temos o “talvez”. Bom começo.

 

 


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